Exposição leva histórias de imigrantes do nazismo para o sertão de Pernambuco
Alteridades provoca a memória como ferramenta preventiva e convida estudantes da rede pública estadual a pensarem na empatia com deslocados

No próximo dia 16 de março, em Pernambuco, será inaugurada a exposição Alteridades: memória, migração, exílio e direitos humanos, uma mostra interativa voltada à popularização da ciência, especialmente da História. Ela apresenta trajetórias reais de pessoas perseguidas pelo nazismo que migraram para o Brasil, especificamente para Pernambuco, e precisaram reconstruir suas vidas em um novo contexto cultural e social. O projeto será iniciado na semana em que se celebra o Dia Nacional da Imigração Judaica (18 de março).
Ao todo, são nove histórias individuais que inspiram a discussão de questões universais: como alguém perde sua casa, sua língua e sua identidade, e precisa reinventar formas de pertencimento?
O projeto é financiado pelo Edital da FACEPE Helen Khoury de Apoio à Difusão e à Popularização da Ciência, aprovado em 2025, e conta com o apoio do Instituto Brasil-Israel, do Museu do Holocausto de Curitiba, e do Centro Cultural Brasil Alemanha, que forneceram importantes materiais para a construção das propostas pedagógicas.
A exposição deve percorrer sete escolas da rede pública estadual localizadas na Região Metropolitana, Zona da Mata Norte e Agreste, servindo como conteúdo educacional de alcance para aproximadamente cinco mil estudantes e mais de cem professores.
“O objetivo desse projeto é transformar conhecimento histórico qualificado em experiência educativa acessível, trabalhando memória, ciência e cidadania ao mesmo tempo. A exposição mostra que grandes tragédias históricas não começam com violência extrema, mas com pequenas naturalizações: piadas, exclusões, discursos de ódio e desumanização do outro. Ela convida o visitante, especialmente os jovens em formação, a acompanhar a trajetória individual dessas nove pessoas e a perceber como decisões sociais e políticas afetam vidas concretas”, destaca Karl Schurster, coordenador do projeto e assessor do IBI.
A partir dessa percepção, a exposição leva o visitante para um lugar em que a discussão sobre direitos humanos deixa de ser abstrata e passa a ser concreta. Dignidade, pertencimento e reconhecimento são buscados, numa reflexão sobre alteridade, acolhimento e convivência com o outro.
Para Schurster, a memória funciona como ferramenta preventiva, que viabiliza compreender o passado para evitar repetir padrões de intolerância no presente. “Assim, a história não é apenas sobre o que aconteceu, mas sobre o que escolhemos fazer hoje. Ao conhecer essas trajetórias, os estudantes devem compreender que todo ser humano pode, em algum momento, ser o ‘outro’, o estrangeiro, o deslocado, o diferente. Quando reconhecemos a humanidade do outro, fortalecemos a democracia e reduzimos a intolerância, algo fundamental para formar atitudes no presente”.
Inquietação historiográfica e educativa
Para os organizadores, a exposição é uma ação de história pública que tem como intuito tirar os registros do papel e colocá-lo em circulação social. “Muitas histórias de refugiados do nazismo que reconstruíram suas vidas aqui em Pernambuco permaneciam praticamente desconhecidas fora dos arquivos e das famílias. Havia um enorme potencial de transformar essas trajetórias em conhecimento público. Ao mesmo tempo, vivemos um contexto contemporâneo marcado por novas migrações, intolerâncias e disputas de memória. Então, veio uma inquietação e a proposta nasceu justamente para aproximar pesquisa acadêmica e sociedade, transformando fontes históricas, cartas, memórias e relatos em uma experiência acessível, sensível e educativa”, diz o coordenador do projeto.
Mais do que essa aproximação com a sociedade, Alteridades foi concebida como oportunidade de formação cidadã, com questões presentes no cotidiano dos estudantes: preconceito, pertencimento, diferença e convivência, além de temas sensíveis como memória, migração e direitos humanos. Daí a decisão de rodá-la pelas escolas de Pernambuco.
“Ao trabalhar essas histórias em sala de aula, o aluno deixa de ver o Holocausto como algo distante e passa a compreender que eram pessoas reais, com idade próxima à dele, que tiveram suas vidas interrompidas e reconstruídas. Isso humaniza o conteúdo histórico e ajuda a desenvolver empatia, pensamento crítico e consciência histórica, objetivos centrais da educação básica”, revela Schurster.
Para ampliar o objetivo educativo, a exposição não funciona isoladamente. Ela é acompanhada por um conjunto pedagógico que contempla material didático para professores, ebook temático com propostas de mediação e atividades, vídeos curtos e acessíveis com trajetórias de migrantes, além de livros infantojuvenis sobre migração e memória e propostas de atividades para sala de aula.
“Temas sensíveis não podem ser tratados apenas com impacto emocional. É preciso mediação pedagógica. Por isso, os conteúdos foram organizados em linguagem acessível, com recursos visuais, narrativos e atividades orientadas para a realidade escolar. Os materiais ajudam o professor a transformar a experiência da visita em aprendizagem estruturada, evitando simplificações e estimulando reflexão crítica, de forma que o professor não seja apenas espectador, mas mediador do processo de formação esperado pelo projeto Alteridades”, conclui Schurster.




