Mais que solidariedade: Voluntariado avança entre estudantes e passa a ser visto como formação para o mercado de trabalho
Professor da UNIASSELVI aponta que experiências práticas e engajamento social ganham relevância na formação profissional e ajudam a desenvolver habilidades como liderança, comunicação e trabalho em equipe

De acordo com levantamento do Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025, apenas em 2024, foram registradas 34 mil ações de voluntariado e o alcance das iniciativas chegou a 7,3 milhões de pessoas. Tal fato evidencia a expansão da atividade no Brasil. Já segundo a pesquisa do Instituto Datafolha de 2021 sobre o mesmo tema, o país possui cerca de 57 milhões de voluntários ativos. Neste cenário onde o mercado de trabalho, está cada vez mais competitivo, as iniciativas voltadas ao voluntariado tornam-se um diferencial profissional e uma maneira eficaz de desenvolver competências como adaptação, pensamento crítico e tomada de decisão rápida, especialmente para alunos que estão na faculdade.
As instituições de ensino, como escolas e universidades, assumem papel estratégico ao oferecer um ambiente propício para o primeiro contato com o voluntariado. Com orientação e suporte institucional, os estudantes podem atuar em projetos com menor pressão por resultados imediatos, favorecendo o aprendizado prático. Nessas experiências, desenvolvem habilidades essenciais como liderança, trabalho em equipe e comunicação interpessoal, além de competências como empatia, negociação, autonomia e senso de responsabilidade.
“Essas experiências, além de contribuírem para a formação cidadã, também preparam o jovem para os desafios profissionais, ao aproximá-lo de realidades diversas e estimular uma atuação mais consciente e colaborativa. O voluntariado deixou de ser apenas um ato de solidariedade e passou a ser uma verdadeira escola de competências para o mercado de trabalho. O mercado valoriza o voluntariado não pelo caráter assistencial, mas pela evidência concreta de competências comportamentais”, afirma Fernando Eduardo Cardoso, Pós-Doutor em Administração e professor da UNIASSELVI.
Em processos seletivos, essa experiência pode ser decisiva, especialmente para candidatos com pouca vivência formal. O voluntariado demonstra proatividade no desenvolvimento profissional. Muitas empresas já incorporam ações de voluntariado em suas estratégias internas por meio de programas corporativos, usados para formar lideranças e fortalecer a cultura organizacional.
Como incluir o voluntariado no currículo
Segundo o pós‑doutor, incluir voluntariado no currículo não é listar boas intenções, mas demonstrar resultados, competências e traduzir a experiência em entregas concretas. Detalhe o papel exercido, responsabilidades assumidas e resultados alcançados.
Conecte o voluntariado às competências exigidas pela vaga. Evidencie como a experiência contribuiu para habilidades relevantes. “Essa conexão aumenta a percepção de aderência ao perfil buscado. O voluntariado passa a ser visto como parte da trajetória profissional, e não como algo paralelo”, diz Cardoso.
Esssa experiência é incentivada no Brasil?
Ainda não de forma ampla. Existem iniciativas relevantes, mas há uma lacuna na integração entre voluntariado, educação e mercado de trabalho. “O Brasil ainda trata o voluntariado mais como ação social do que como estratégia de desenvolvimento humano e profissional.” Muitas vezes, as experiências não são estruturadas para potencializar o aprendizado, o que limita seu impacto na formação profissional.
Nas instituições de ensino, o voluntariado pode e deve ser mais explorado como ferramenta pedagógica, em programas de extensão e projetos aplicados. Quando bem estruturados, permitem o desenvolvimento de competências práticas enquanto geram contribuição social.
No ambiente corporativo há espaço para avanço. Embora algumas empresas possuam programas de voluntariado, a prática ainda não é generalizada. A tendência é de crescimento; o desafio é transformar o voluntariado em política mais estruturada e acessível.
Diferença entre voluntariado pontual e contínuo
Ações pontuais, como eventos ou campanhas, são importantes para sensibilização e primeiro contato com causas sociais, mas têm impacto limitado no desenvolvimento de competências.
O voluntariado contínuo, por sua vez, proporciona aprofundamento e maior responsabilidade. Acompanhando projetos ao longo do tempo, o indivíduo precisa planejar, executar e avaliar resultados, gerando aprendizado mais consistente e estruturado, mais próximo de um ambiente profissional.
Criando propósito e conexão genuína
“Escolher uma causa alinhada à carreira é transformar propósito em estratégia profissional”, afirma Cardoso. Identifique as competências que deseja desenvolver e busque projetos que ofereçam oportunidades práticas. Considere também o interesse pessoal: quando há conexão genuína com a causa, a dedicação tende a ser maior e mais duradoura.
O voluntariado é hoje uma das formas mais acessíveis e eficazes de desenvolver competências valorizadas pelo mercado. Seu avanço como diferencial profissional reflete uma transformação estrutural no mercado de trabalho, que passa a priorizar experiências práticas, propósito e competências comportamentais. “Integrar essas vivências à trajetória profissional não é apenas uma escolha pessoal, mas uma estratégia inteligente de empregabilidade”, finaliza.




