Projeto literário aproxima estudantes de escolas públicas do Recife do debate sobre bicicleta e mobilidade
Ação itinerante começou na última quinta-feira (29), no Liceu Pernambucano, e percorre outras escolas públicas do Recife até junho com rodas de poesia e participação de estudantes

A experiência de aprender a circular pela cidade de bicicleta marca o ponto de partida da pesquisa do escritor Francisco Di Carmo. O que começou como prática cotidiana de deslocamento se transformou em escrita e agora ganha as salas de aula com o projeto “Mobilidade urbana e a poética das bicicletas“, que percorre escolas públicas do Recife com recitais e rodas de conversa voltados a estudantes do ensino médio. A abertura aconteceu nessa quinta-feira, 29 de abril, na Escola de Referência em Ensino Fundamental e Médio Liceu Nóbrega de Artes e Ofícios, Av. Oliveira Lima, 824, bairro da Boa Vista, no Recife.
A circulação segue no dia 25 de maio, às 9h, na Escola de Referência em Ensino Fundamental e Médio Rosa de Magalhães, na Av. Aníbal Benévolo, 1378, bairro de Beberibe, Recife, com participação de Ivanilton Leão, integrante do Pedal Duplo Acessível, e no dia 10 de junho, também às 9h, na Escola de Referência em Ensino Fundamental e Médio, Rua Almirante Nelson Fernandes, Sn. Boa Viagem. Em cada escola, estudantes participam de encontros que combinam leitura, escuta e troca, a partir dos 48 poemas produzidos ao longo da pesquisa iniciada em 2021 e concluída em 2026.
A escolha da bicicleta como eixo da pesquisa dialoga com um movimento mais amplo das cidades brasileiras. Dados do IBGE indicam que milhões de brasileiros utilizam deslocamentos ativos no dia a dia, como caminhar e pedalar, especialmente para trabalhar, estudar e resolver atividades cotidianas. No Nordeste, esse uso aparece com mais intensidade e dialoga com as dinâmicas urbanas da região. No Recife, a presença da bicicleta cresce e passa a ocupar diferentes funções no cotidiano, conectando bairros, reduzindo distâncias e ampliando possibilidades de circulação.
Esse movimento se expressa também na paisagem da cidade. A ampliação de ciclovias e ciclofaixas integra a bicicleta ao planejamento urbano e fortalece o transporte não motorizado como alternativa de mobilidade. Ao mesmo tempo, pedalar revela formas distintas de viver o espaço urbano, evidenciando trajetórias, acessos e experiências que variam conforme o território e os corpos que circulam pela cidade.
É nesse contexto que a escrita de Di Carmo se constrói. Ao pedalar para trabalhar, estudar e atravessar o Recife, o autor transforma a experiência em matéria literária. Os poemas capturam o ritmo da cidade, os encontros nas ruas e as formas como o deslocamento cotidiano se conecta a questões sociais mais amplas. A bicicleta aparece como ferramenta de leitura da cidade e como linguagem que aproxima literatura e vida urbana.
O projeto também atua como ferramenta educativa dentro da escola pública, estimulando leitura e reflexão a partir da realidade dos estudantes. A proposta alcança cerca de 150 alunos e professores e cria um espaço de escuta e identificação por meio da poesia.

Os textos apresentados integram um livro em fase de finalização, com lançamento previsto este ano. A pesquisa e a escrita são assinadas por Francisco Di Carmo, que atua na cadeia produtiva do livro e desenvolve trabalhos voltados à materialidade do texto e do objeto editorial. A orientação e edição são da escritora, editora e pesquisadora Raíza Hanna Milfont, autora de Sol a Pino, fundadora da editora Alvoroça, coeditora da Castanha Mecânica, doutoranda em Ciência da Literatura pela UFRJ e idealizadora do Prêmio Clarice Lispector.
A equipe conta ainda com coordenação de acessibilidade de Liliana Tavares, da Com Acessibilidades, Ayodê França como ilustrador da identidade visual, Karla Fagundes como fotógrafa e produção do Colofão.lab. Todos os encontros contam com intérpretes de Libras e ampliam o acesso às atividades. O projeto tem incentivo do Sistema de Incentivo à Cultura da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, Secretaria de Cultura e Prefeitura do Recife e também se desdobra no ambiente digital com a publicação de conteúdos acessíveis nas redes sociais do Colofão.lab.




