Morcegos do Nordeste revelam riquezas subterrâneas e orientam políticas de conservação

Com a colaboração do Instituto SOS Caatinga e do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia, as bat caves foram identificadas no estado do Alagoas, no município de Belo Monte e no sertão da Bahia, no município de Paripiranga, respectivamente

Por jangada.online em

24 de junho de 2026 às 12:50
Pteronotus rubiginosus (atrás) e Glossophaga soricina (na frente) – Foto: Jennifer Barros

A descoberta de mais duas cavernas que abrigam grandes colônias de morcegos — podendo reunir dezenas ou até centenas de milhares de indivíduos — evidencia as riquezas subterrâneas do Nordeste e pode nortear novas políticas ambientais, como a criação de uma nova unidade de conservação. Expedições realizadas na Bahia e em Alagoas identificaram duas novas bat caves, que ampliam o conhecimento sobre o comportamento dos morcegos na região e reiteram o potencial espeleológico nordestino. O trabalho integra uma das ações do Plano de Ação Nacional (PAN) Cavernas do Brasil, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav), em parceria com a Bat Conservation International, por meio de seu Programa Brasil.

Com a colaboração do Instituto SOS Caatinga e do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia, as bat caves foram identificadas no estado do Alagoas, no município de Belo Monte e no sertão da Bahia, no município de Paripiranga, respectivamente.

Segundo a bióloga, doutora em biologia animal e coordenadora do Programa Brasil da Bat Conservation International, Jennifer Barros, “o achado nessas cavernas é bastante relevante, pois já existiam registros de bat caves nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Sergipe, e sabia‑se que espécies de morcegos do gênero Pteronotus, que formam grandes colônias, utilizavam essas cavernas como uma rede de abrigos. “Com os novos registros, foi possível preencher parte da lacuna na rota desses morcegos pelo Nordeste, ampliando essa distribuição para a Bahia e favorecendo a conexão entre Sergipe e Pernambuco, com a contribuição de Alagoas”, afirmou.

Na Bahia, a ideia de que os morcegos poderiam ser hematófagos, ou seja, alimentarem-se de sangue, gerava receio entre a população. Fernando Silva, integrante do Grupo Mundo Subterrâneo de Espeleologia, explica: “ao visitarmos locais de grande relevância, como a Caverna do Bom Pastor e a Toca dos Morcegos, conseguimos desmistificar antigos medos. Em especial, os estudos realizados na Toca dos Morcegos confirmaram a ausência de espécies hematófagas, trazendo alívio imediato para os criadores de gado da região. Conversamos com pecuaristas locais e, ao compreenderem a verdadeira natureza desses animais, passaram a sentir-se muito mais seguros. Quando a comunidade recebe conhecimento técnico, torna-se a principal guardiã do patrimônio natural”, destacou.

O potencial da descoberta

Para o doutor em biologia, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e articulador do PAN Cavernas do Brasil, Enrico Bernard “descobrir populações tão grandes e significativas tem um alto valor conservacionista. Proteger estes abrigos e seus milhares de morcegos ajuda até a garantir qualidade de vida para as populações humanas que vivem perto destas cavernas. Como comem centenas de toneladas de insetos por ano, as populações destas cavernas ajudam até na redução do uso de defensivos agrícolas, gerando economia para produtores rurais”, disse Bernard.

Segundo Jennifer Barros, “o entendimento sobre o uso dessas cavernas como abrigo por espécies de morcegos pode contribuir para a definição e a atualização de políticas públicas relacionadas ao licenciamento ambiental e à avaliação de espécies ameaçadas. Além disso, a identificação desses abrigos, que são cruciais para as populações de Pteronotus, possibilita a adoção de ações diretas de conservação, como a criação de unidades de conservação”, disse a pesquisadora.

Perspectiva para criação de uma nova unidade de conservação em Alagoas

A caverna encontrada em Alagoas, no município de Belo Monte, também foi apontada como uma como hot cave — cavernas conhecidas por terem uma única entrada relativamente pequena, baixa circulação de ar, alta densidade de morcegos, temperaturas ambientes constantes durante todo o ano de 28–40 °C e umidade relativa acima de 90%. Essas cavidades integram um grupo raríssimo no país: das mais de 30 mil cavernas registradas no Brasil, menos de 20 são consideradas hot caves, o que as torna um dos ecossistemas mais singulares e frágeis do país.

O presidente do Instituto SOS Caatinga, Marcos Antônio Araújo, destacou a importância da atuação dos órgãos competentes na proteção da caverna. Segundo ele, “trata‑se da única caverna conhecida de Alagoas com esse potencial, abrigando mais de 21 mil morcegos insetívoros. Poucas pessoas conhecem os benefícios que esses animais trazem para o ecossistema, e é fundamental levar informação qualificada sobre a real importância desses mamíferos para o equilíbrio ambiental”. Diante da relevância ambiental da área, os pesquisadores envolvidos no trabalho reuniram‑se com a prefeitura do município para discutir a possibilidade de criação da primeira unidade de conservação municipal voltada especificamente à proteção de morcegos.

Para o prefeito do município de Belo Monte, Dalmo Augusto de Almeida Júnior, a descoberta da Bat Cave é um marco para a cidade. “A caverna nos coloca como guardiões de um ecossistema vital. Os morcegos são aliados da agricultura, atuando no controle de pragas e no equilíbrio da fauna. Por isso, nosso licenciamento ambiental passa a ser mais técnico e rigoroso, garantindo que o desenvolvimento econômico respeite os limites da natureza e proteja esse patrimônio espeleológico de máxima relevância.

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